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sexta-feira, 23 de maio de 2008

Hoje

E hoje, por ser hoje, não escrevo nada deprimente.
Sentir tudo e nada sentir é bem mais que suficiente.


(O blogue morreu. Longa vida ao blogue!
)

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Os Olhos da Alma

"Sentei-me no nosso lugar para me poder ver por dentro.
Sabia que podia esperar-te no nosso sítio
de sempre. Sabia porque consegui respirar-te. E enquanto
conseguir respirar-te, mesmo que não seja no nosso lugar,
sei que posso esperar pelos teus olhos que abrem o mundo
e mostram que os instantes duram o tempo que nós
quisermos. Sei que no nosso lugar tu moras no vento
que me beija o lábios, que me afaga o cabelo. Moras na luz
que me faz fechar os olhos e ver os teus olhos,
no indefinido infinito das estrelas. Moras no chão que piso.
Moras nas ervas, nas papoilas, nos malmequeres.
O nosso lugar não tem girassóis, mas, se tivesse, saberia sempre
onde estavas…
E, mais do que tudo o que eu possa ver de fora do nosso lugar,
quando lá estou, vejo que moras em mim.
Só lá posso ver-me por dentro. Só lá me vi por dentro.
Ao som da música das tuas palavras que transbordam
os feitiços da alma.
O nosso lugar é como aquelas caixas de música que
só se tornam bonitas quando abertas. Quem passa e anda,
sem parar para sentir o vento, não vê a alma.
Não vê o amor.
Não vê a música que nasce dos teus olhos.
Sentei-me no nosso lugar para me poder ver por dentro.
Sentei-me no nosso lugar para te poder ver.
Só para fechar os olhos e sentir na minha mão
a tua impressão digital, o teu toque
que abraça a alma."

12 de Julho de 2007

Statisticum Collegium

Um ano.

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Hum.

Ante Diem XI Kalendas Junius

22 de Maio é o 142º dia do ano no calendário - faltam 223 para acabar o ano.

Neste dia, há dez anos, começava a Expo 98.

Neste dia, em 1859, nascia Sir Arthur Conan Doyle.

Neste dia, há 101 anos, nascia Hergé.

Neste dia, em 1919, nascia Eva Péron.

Neste dia, em 1924, nascia Charles Aznavour.

Neste dia, em 1946, nascia George Best.

Neste dia, em 1956, nascia Morrissey.

Neste dia, em 1970, nascia Naomi Campbell.

Neste dia, em 1885, morria Victor Hugo.

Neste dia, desde 1982, comemora-se o Dia do Autor Português.

Neste dia, em 1960, ocorria no Chile o maior terramoto jamais registado.

9,5 na escala de Richter.


Neste dia, há um ano, nascia este blog.

E o Chile passava à história.


Parabéns, OBELISCO DA MEMÓRIA.


segunda-feira, 12 de maio de 2008

Sofisma

As matizes da alma são contornos alados.

Palavras certas em lábios errados.

Palavras erradas em lábios certos.

A saciedade mora em sonhos despertos.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Dianódio

Inventou-se uma palavra nova, que se quis escrever onde faz sentido. No peito sentido de um torpor em riste. Amamos um calhau em riste. Já reparaste? Nunca ninguém na vida entenderá o que é ser templo a coisa nenhuma, porque a vida são dois dias e entre eles houve ontem. Acordado no meio da realidade, banhado em desejos eléctricos de abraços frenéticos, luzes e cores e sombras de amores, sons e encantos e sonhar, eternamente sonhar. Ser o palco do nosso palco, o segredo do medo e a virtude de andar descalço sobre os vidros sem se cortar. Somos humanos, somos ou não somos menos humanos quando o somos? A palavra nova busca o seu significado , procura-se no seu significante, perdeu-se quando o achou. Dá-se o último trago de um cálice incendiado a vapores e óleos perfumados, e restos de mim e do eu em bocados. E é um prazer enorme saber que nada se percebe. São as ondas que levam o sentido, são as ondas que o trarão também. Quando houver mais que dois dias e nenhuma noite no entretanto que se nos espalhe em pleno encanto. Que no nada haja espaço para se entender, e veremos sempre o dia cruzar a fronteira e ir beijar a noite. Porque eu também gosto. E a palavra nova está ai. À procura de si.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Asfalto Vinil

Ultimamente, vejo equívocos inequívocos em toda a parte. Não percebo os ninhos dos passarinhos, faz-me confusão o mar, o céu que desaba ainda mais, e acredito que a terra se desenha à medida do horizonte que se alarga, como se fosse criada apenas naquele instante. Vejo pixelizações de uma realidade envolta na surdina da neblina que gravita entre nós. São imagens, apenas imagens. Repito-o vezes sem fim e adormeço apenas quando acredito. Existe um silêncio que percorre as paredes, os muros, os jardins, os lagos e creio que todos os sítios para além do que sei. Como um tratado de comunhão confortável onde não se fala das dívidas que consomem a alma, ou não a consomem de todo por isso. Sinto que há caminhos que se isolam, que levam a lado nenhum, que giram em círculo indo dar de novo ao si mesmo que é lado nenhum também, e creio que muitas vezes andamos todos nessas estradas sem darmos conta. Porque não queremos dar conta. Porque a esperança se renova na matriz da ilusão que patenteamos com propriedade, como se aquilo que faz do asfalto vinil estivesse fora de nós, e não fossem culpa nossa as rotações que infinitamente damos em redor do mesmo cadafalso. A intermitência das nuvens há-de deixar ver além dos equívocos inequívocos que não sei, mas que adivinho quando me sorriem a medo. E há-de deixar que o silêncio pereça, como um fruto débil num chão caído e árido. Como regatos de relva sulcando prados de água, onde não sabemos onde estamos, mas estamos onde sabemos. Um dia de cada vez, é como se faz o luto das coisas que nunca morrem e que nunca nos deixam. Em paz.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Lei I

Anima-te por teres de suportar as injustiças.
A verdadeira desgraça consiste em cometê-las.

sexta-feira, 28 de março de 2008

Planisfério Epidural

Quis escrever no vazio
para encher o vácuo 
com algo que mais que o nada.


Sinto-me sem sentidos perante a imensidão
duma escravidão provocante
e eis que me sento perante o deleite
dessa mesa fastidiosa. 


As palavras saem feito murmúrios insignificantes
contra a parede das masmorras 
que cresceram à nossa volta. 


Há algo de verdadeiramente triste 
no vigor duma lágrima rubra 
que jamais tocou o solo árido 
da tua terra. 


São avelãs aveludadas
que jamais crescerão empertigadas
ao sabor do topázio dos açucares
que trazemos nos bolsos do olhar.


Espelhados no frondoso beiral do pomar, 
havemos de sorrir e mastigar 
a mendicidade da brisa que nos açoita. 


Não sei o que significa este segundo
em que padeço de mim próprio. 


Apenas sei que baloiço em consonância
quase perfeita com o bailar das folhas 
e o serpentear dos aromas, 
e nisto sei que sou daqui, 
que pertenço ao tédio do remédio 
que me consola a calma da alma. 


E ao arder devagar, 
neste brando costume 
de ser não mais que sibilante lume, 
é onde me vejo, inquietamente quieto, 
de mãos suadas e peito em pó. 


Como se o mundo mais não fosse
que meras cicatrizes 
do que dizes.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Mensagem

Nada me dizeis, senhor...
Meus olhos serão igualmente a vossa manta,
Mas meu corpo moribundo dormirá ao frio...
Que desmesurado sacrilégio vos terei feito, cavaleiro?
Para receber de fortuna o eco do silêncio das palavras
Que não dizeis, na noite que cai na alma
De quem só pede um pequeno lampejo de vossa misericórdia...



sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Finisterra

Em tempos idos, pesadelos dourados a prata era tudo o que tinha a favor dos ventos de veludo e das marés de cetim em que me deitei. Enriquecida, ou antes embrutecida nos favores dos deuses, não há chancela que purifique o que a alma não ratifica como sendo sua. Queremos todos ser aquilo que nunca desejamos, porque o promontório tido como final reside na importância do ideal que concretizamos, e nunca do que idealizamos concretizar. São verdadeiros guetos repletos de féretros inertes e insolúveis pela teimosia das palavras que me cobrem que nem mantas. Não sei se gostaria de um dia ser um deles. Mas confesso que sorrio perante a ideia da hora em que, sem dúvida, os sonhos banhados a latão em que me imagino a ser quem sou, tornar-se-ão algo mais que meros cúmplices da minha insana existência. Atrás daquela porta que nunca ninguém ousa fechar, seremos sempre uma cama de dossel enferma pelo micróbio insensato da adoração. Soa a um voraz silêncio o vazio erudito das coisas que nunca sairão da boca que se cala porque quis falar. E soa a eternidade a grandeza dum coração que fraqueja porque sabe que nunca irá adormecer de fraqueza. Resguarde-se o tempo deitando-se em minha cama, que a sua idade há-de ser sempre pouca face ao que sentem almas (e corações) assim.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Clausura Prematura

Muitas vezes damos conta de que somos meros bonecos manietados por cordéis que nos ultrapassam e nos esmagam por completo. Olhamos em redor e não vemos ninguém que nos acuda ou impeça o trespasse do cinzel em bisel que nos perscruta o cérebro em surdina. Custa sempre muito mais acreditar que alguma vez o que sonhamos foi realidade, e que dominamos toda a dimensão do nosso ser, até mesmo o volume maligno da nossa mala desfeita em cima da cama. Estamos sempre preparados para sermos infelizes na miséria de não conseguir olhar acima de onde nos encontramos. E nessas ruas perdidas e transviadas, é onde sei que encontrarei a resposta para a maior de todas as dúvidas. Porque as coisas não se fazem por acaso, nem se deixam ao acaso. Porque nada arde mais que isto. Portas que se fecham e outras que se abrem, mas que não sabemos onde levam, enquanto estamos ainda de olhos habituados ao mar. E sentir e mostrar que se sente nunca é desperdício de tempo, excepto quando descobres que é. Mantemo-nos vivos respirando ares medíocres de ventos abafados e alimentando o nosso frágil corpo com promessas de promessas melhores. E porque teremos de estar como havemos de merecer então. Felizes na ideia de que somos felizes na exacta medida que deviamos ser. No fundo, o que importa é o valor incomensurável do silêncio. E como ele há-de falar melhor do que qualquer inútil palavra na inutilidade duma boca que se curva como o turvo, turvo horizonte que desenho no lugar onde não sei de ti.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

♫ Sinal ♫

Tens o dom da palavra certa
Escreves a sal na minha vida
És a melodia que em mim desperta
A paz numa alma ferida

Não sei onde estou agora
Mas sei que não estou sozinho
Sei que há alguém lá fora
Que me embeleza o caminho

Numa vida sem certezas
A mais bela das surpresas
Dá-me um sinal...
Desse amor

Eis que ardo em lume brando
Eis que sinto o doce enleio
Da memória que me vai alucinando
Do fulgor dum peito cheio

Há um ritual sagrado
Há um verbo e um vocativo
Há um sonhar acordado
E um sorriso ilustrativo

Numa vida sem estalagem
A mais doce e terna margem
Dá-me um sinal...
Desse amor

domingo, 9 de dezembro de 2007

Dementiamentis

Feixes de luz vagueiam pelos céus à procura de estrelas que os completem. São intermináveis caminhos que se cruzam entre si como auroras que em catadupa procuram boreais que as determinem, enquanto cá dentro a chama mirra e o ar rareia. São cristais afiados e brilhantes que perdem gume e alastram ao alabastro carcomido duma vida isolada. Surge o desafio de entumescer empertigadamente a demência total, como se o seio são dependesse do toque afoito de um dedo arisco. Creio que me aflige ser são. A honra está em morrer como deve ser. As sepulturas da alma cobrem muito mais do que aquilo que os olhos deixam vislumbrar, e as gavetas em que inserimos as ideias roubadas a outrem começam a ser vasilhas perecíveis e permeáveis. Já não há nada de novo aí. Acreditamos muito mais na saudade do que nunca tivemos do que na esperança que de que o melhor ainda virá. É coisa que só existe na sanidade da nossa demência. Total. Uma vez mais, sem aviso e sem anúncio, anuncia-se avisadamente o retorno à sobriedade e ao retiro discreto. A segurança está em sermos capazes de nos lermos como a um livro que detestamos. Com ávida crítica destrutiva, esperando que alguém mais o leia e construa o que teimamos em desconstruir. Acredito que já fomos mais capazes do que agora. Acredito que já esperamos mais do que esperamos. E acredito que o melhor do que já foi ainda está para vir. E as coisas que nunca são tão más quantos parecem, surgem-nos melhores do que alguma vez foram. Nunca reais, nunca sãs. Mas eternamente miragens do que augura o sonho ilusório duma mente demente.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Tenazes loquazes

Hoje sinto-me desprovido de pele. Não acuso a protecção quase maternal da epiderme, porque algo diferente me rodeia, me cobre, me enleia como um novelo de lã ou linho. Apertado, apertado. Apenas sei que isto não é a minha pele, não pode ser. Deixei-a caída algures num lugar onde não precise dela, porque será onde a irei buscar quando me deixares. Irei por ela e pelas marcas das jornadas que traz e que dantes me orgulhava, quando eram a única coisa digna de amor. Volto sempre aos braços delas. Sinto-me um pobre extremamente agradado com a sua riqueza, porque sinto e sei que as montanhas e os vales não dependem de mim para se comprometerem com a eternidade. Antes dependessem, seria sinal de que o carrossel seria mesmo permanente, e de que aquele momento não teria tido a brevidade dum fôlego que se esvai. Mas olho e não vejo o que vejo. Não há nada mais inquietante do que o fino e indiscreto labor da falsa crença. E nada pior do que perder o sentido dos sentidos. E uma certeza deixo. Os que realmente partem nunca o anunciam. Simplesmente partem. Só assim faz sentido o vazio que tem de ficar deixado em alguém, para ser sentido como merece, nas entranhas por cumprir do coração. Apertado, apertado. Como deve ser, quando se apercebe que é tarde.

domingo, 4 de novembro de 2007

Crisálida Pálida

E eis que tudo faz sentido. Senti o cheiro da primeira chuva ao molhar a terra virgem dos teus passos, e percebi que há beleza em tudo que seja breve. Um segundo basta para a luz varrer a escuridão. Eu sei porque vi em mim algo maior do que eu, algo que seduz a sedução de sermos sedutores e tenta a tentação de sermos tentadores. Eu sei porque aprendi que é no fim que vamos querer estar e dizer presente. Para vermos o epílogo das vidas que marcamos. Para ver em que mar foi desaguar o leito em que nos deitamos ontem, ou há muitos anos. Nunca amanhã, porque isso fica para quem vier depois. Sejamos eternos então. As águas são saudáveis, e a dívida de colo que teremos de pagar será sempre o nosso motivo mais querido. Porque as altas árvores nunca conseguirão tapar a imensidão dos céus, e porque sei que, de vez em quando, dum qualquer lugar espreitas a ver se me vês a ser cada vez mais eu e cada vez menos outra coisa qualquer. E quando se sabe que se fez tudo que se podia fazer, dorme-se tranquilo. Com o cheiro a terra molhada entranhado em cada sonho que vamos ter enquanto dormimos, pesadamente, como uma criança satisfeita.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Algozes

Tenho andado a seguir um trilho diferente. Um caminho sem mãos dadas, sem faróis acesos rumo ao horizonte e que exige passos solitários. Um lugar onde me é destinado estar. Uma casa sem tecto e de paredes despidas, e cujos cantos sombrios me acolhem sofregamente. Andei longe de mim mesmo para me conseguir ver, e não sei ainda se gostei das tatuagens que vi em minha epiderme, daquelas que marcam a sulcos qualquer um que consiga vislumbrar para além da superficialidade da minha retina. Ardemos devagar e em lume brando, e todas as coisas nos parecem demasiado ou muito pouco. É aquilo que descobri. E hoje olho e não vejo mais o mesmo. Vislumbro marcas de sujidade em minha cara, sinais do tempo passado de rosto encostado às costas da vida, e sei que por arrasto e por não ter reparado a tempo, sucumbi e morri e nem sei onde deixei meu corpo. Não sei também se o quero encontrar. Há algo de muito impessoal nas pequenas mortes que nos fazem sentir. São chagas voláteis e inaudíveis, algozes da alma que vorazes nos mordem e nos comem. Julgamos perecer, mas depois celebramos a borboleta que resulta do casulo em que teimamos não nos transformar até percebermos que nos torna mais fortes. Pelo menos até amanhã. Será sempre essa a luz escura que alumiará o trilho diferente. Será sempre essa a mão dada e o farol aceso, e os passos que der, serão sempre feitos da solidão que vislumbrei ao ver-me a mim mesmo. Tatuado, ardendo devagar.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Paredes

"À sombra de Renoir

Por muito que a paisagem mude, neste postal,
saberás que a mesma mulher estará sempre
sentada entre os impressionismos da despedida.
Saberás que ela deseja, subtilmente, que o futuro
não chegue e não lhe vire a página do livro
fechado no seu regaço.
Saberás que também tu o desejas. Que também tu
queres que o dia se suspenda e permaneça nesta
estação onde te recusas a embarcar.
O teu comboio só parte quando
estiveres disposto a reerguer o teu castelo de nuvens.
E tu sabes que isso é a morte adiada de
todas as tempestades que trazes encarceradas no peito
e que te encarceram um voo mais alto.

Levanta-te dessa sombra de Renoir, abre o peito
ao vento. Deixa que as cores deste postal
impressionem as tempestades que tens que varrer com
minúcia de ourives. Talha o teu coração na
manta dourada da filigrana do sonho. Só assim
poderás acenar, da tua carruagem, às memórias sofridas
que ficaram a dizer-te adeus, da estação que parte.


MB, 13-09-07 "



Obrigado ***



quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Naufrágio

Para todo o lado que olho, vejo fetos e destroços e abortos de conversas despenteadas, vejo colmeias vazias de vôos incessantes, de tempos idos em viagens sem rumo, de semi-sonhos desfeitos em poeira do deserto em que todos caminhamos. Vejo a memória que um dia se irá merecer. Há um odor próximo à inadiável manhã, vem aí mais um irrespirável dia, mas para mim será sempre noite. Uma imensa, escura e sombria noite. Como eu gosto. Esgotei o mau senso de me recriar com o ar rarefeito pelo qual tantas vezes me deixo embriagar. Dias diferentes, algo do momento que foi preciso. Era preciso magoar? Tinha mesmo de ser? Se não fosse de chorar, daria para rir. E percebo onde caio, e onde quero cair, e onde não queria cair, e como me odeio por cair. E como nada nunca mais será o mesmo, porque se adiam os dias. Tudo o que sei é que chove em todos os recantos duma alma assim. E não há um só abrigo à vista. Naquele dia, tudo me pareceu infinito, ou finito duma forma infinita, ou pura e simplesmente nem sequer me ralava. Tudo sabia bem, tão bem, que julguei ter lábios de chocolate. Ou não eram dos meus o gosto doce que a mim fazia toda a impressão de que não havia amanhã. Que bem que podia não haver. Senti o doce enleio do vácuo a aspirar tudo que havia, e acho que sem notar, notei a diferença no fim. Senti a picada fatal, a saída de cena, o estrangulamento venal. Mas o que importa é que houve um pedaço de perfeição, e achei ter ouvido querubins e violinos. Violinos e querubins. E por um segundo que fosse, o mundo foi meu. Toquei o céu sem saber que, debaixo de meu pés, o chão desabava. Eu não sabia, mas a Primavera que se me anunciava, tinha sido Outono já dentro do ventre. É irrelevante, o final. Esse cutelo mor. Corta apenas quando deixas.
Para todo o lado que olho, vejo-me a mim.
Naufragado em riste, um abismo sem fim.

sábado, 1 de setembro de 2007

Mel(ancolia)

Tranquei as portas da minha mente, porque estes são espaços em que mais ninguém vai entrar. Por hoje. Não sei mais como irão sair as ideias, as respostas e as perguntas, se as fecho comigo, se as quero à solta na clausura que há em mim. Sei apenas que as ondas, a chuva e o céu terão de se cumprir na mesma sem que eu esteja lá para testemunhar. Sonho com o dia em que reduzirei as necessidades ao pó da estrada que ficar para trás dos meus passos. Não pode haver uma só raiz que impeça quem nos arranque à terra, mas será sem dúvida tão belo como o sangue que corre uma nova veia que nunca havia explorado. Porque te vejo na vida que quero para mim. Porque eu conheço a tela em que pinto os retratos da minha vida, como se fossem inquebrantáveis pétalas do mais lindo malmequer, e sei que esta é uma imagem nova, e como isso é sempre sedutor. Se há algo em que vale a pena confiar, é em quem confia em nós. Costumava haver um tempo em que era muito mais fácil darmo-nos, e com isso recebermo-nos. São coisas que julgamos perder até as acharmos no mais fundo dos bolsos. É no fundo a saudade dum tempo por vir, e julgo que nada é tão único como o começo de todas as coisas. Amanhã, será o início dum novo ciclo, os mesmos degraus onde tropeçamos estarão lá, já os sabemos de cor, e de certeza que cairemos de novo perante eles, se nos aprouver, porque a dor é uma coisa engraçada, que nos atrai tanto como atraiçoa. As quedas nunca são iguais, como a esperança também não o é. Somos no fundo seres voláteis à nossa própria volatilidade. Constantemente mentimos a nós mesmos, prostituindo a nossa mente ao deleite insano do coração. De qualquer modo, sei que posso voar se assim quiser, porque as asas estão aqui. Só não vamos onde não queremos, e uma força muito maior do que nós deixará sempre que pensemos que coube a nós toda a escolha. Porque as estradas estão aí para caminhar, e ainda há muito sal de lágrimas para provar, muitas velas por soprar, muitos livros por escrever, e muitos amigos por fazer. Vidas novas nas quais possamos viver a morte de outras. Não é?

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Jean Grey

Deste lugar feito mito onde me sento, vislumbro a cidade do futuro. Vejo o castanho do ferro, o cinzento do betão, o azul do lume brando e o laranja da labareda selvagem. Vejo o encarnado aviso às aeronaves. Farolins que não apontam para lado algum, apenas estão lá. Como os amigos. É o que todos somos no fundo. Vejo o fumegante labor dos canhões em riste e acho que libertam o mesmo que eu. É o que eu sou no fundo. É então este o tempo. É esta a era de todos os encantos se despirem de ilusões. Apagam-se as palavras antigas da memória, porque ela é volátil, responde traiçoeiramente aos desejos do relógio que queremos usar no pulso, aquele que funciona pelas batidas do coração, até ele falhar. Aí, o relógio deixa de funcionar, e o tempo já não passa. Ou passa, mas já não importa, porque o coração parou e o relógio também. E não se sabe qual depende de qual, se o relógio do coração, ou o coração do relógio. Só se sabe que tal como funcionam juntos, também param juntos. E isso é tudo que importa. Neste lugar onde as palavras ficam e perduram, apagam-se todas aquelas que não merecem este altar. Não sou o único a estar aqui. A magia dum pedaço de história toca muita gente, e vejo na sua alegria de agora, a minha de outrora. Sei onde fica o lugar certo para estar, sei qual o caminho que me leva lá, e... ocorre-me uma ideia, que assento para não esquecer: Sabes quando algo mexe tanto, mas tanto contigo que, por muito que haja para dizer, perdes toda e qualquer vontade de o fazer? Levanto-me somente porque estava sentado. Digo adeus a alguém que não está, e até breve ao meu mais fiel amigo. Porque este é o lugar de onde vejo o futuro, cada vez mais presente que o passado.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Exposé

Esta manhã, toda a imensa rua está escura, enevoada pela sombra da luz do dia. Os prédios parecem mais altos, as casas têm cores sombrias, duvido que haja árvores e ninhos e passarinhos neste mundo. Descobre-se agora facilmente o lixo das ruas que pensávamos limpas e seguras na noite dos sonhos. Era algo que com certeza seria bonito, não importa quão frágil fosse, não interessa se desaparecia ao abrir dos olhos. Mas agora essas ruas estão cobertas de vidro esmagado, e não se escolhe quando se caminha descalço. Segue-se em frente, porque a estrada já lá está feita, e se não formos nós a percorrê-la, ninguém o fará por nós, todo esse mel é só nosso, e é tudo o que temos de vez em quando. A única esperança é não ter de ajoelhar nem de vergar as mãos ao solo no entretanto. E que as chagas se resumam ás plantas dos nossos pés. Porque um dia, as silvas que orlam estas avenidas são substituídas de novo por belas flores e um mundo de cores, e é um passeio muito mais alegre, "pois o sol já desponta no horizonte", e porque "enganais-vos quando dizeis que não tendes manta, meu olhar em vós repousa". E é esse todo o calor que alguma vez precisamos, o da palavra certa no momento certo, uma cantiga de amigo. A amizade onde nos procura, e não onde a procuramos. Esta manhã, foi por segundos, breves segundos que a rua me pareceu escura. As casas na verdade são térreas, as sombras são feitas de luz, e os melros assobiam um eco divino, creio que falam de anjos. Creio que falam de ti. Vislumbro roseiras abertas de par em par ao longo da estrada. E há uma manta que espero que nunca mais abandone meu sono, tão tranquilo e tão sereno como sempre gostei que fosse. Porque nada nos impede de sermos livres quando realmente o queremos ser.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Dar tempo

Foi neste preciso instante que fiquei sem chão.
Como em todas as quedas, um Inverno em pleno Verão.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Absoluto Obsoleto

Estou em crer que também as palavras caducam. É um problema que tem a ver com o seu significado. Ironicamente. Porque é um relevo que a chuva do tempo lava e destrói num ápice. Acho que tenho o meu dicionário repleto de palavras caducas, decadentes e já vazias de significado. Algumas porque nunca o tiveram, embora eu achasse que sim. Porque ele existia. E ele está lá, escrito à sua frente. Mas eu não o vejo, não o leio, não o entendo. Nada é para mim. Preenche-me da mais absoluta insignificância, e é uma ignorância que me agrada, porque não quero saber quando as palavras doem. Quando as palavras modificam. Se modificam. Quando a incontinência verbal dá azo a flexões que me vergam, a síncopes em que desmaio , a aféreses que teimo em subtrair à inconsciência do meu próprio discurso, e se vislumbram as regras injustas da mudança que me deixa desregrado. Quanta teimosia há nas palavras que rebatem na escuridão dum muro alto que nunca vimos ser feito à nossa frente. É uma construção mecânica, que só nos apercebemos quando já a luta se prolonga sozinha, porque nós nunca a abandonamos. Ou ela a nós. É um raio de luz que se extingue subitamente, porque se pensou no que nós não pensamos. Porque tudo era cosmos, e nós jamais fomos estrelas. Porque só o disseram que fariam porque tu querias. Porque nada corta mais do que te estarem apenas a fazer a vontade. Nada nunca foi tão claro como o absoluto obsoleto ser que agora sentes que és. E tudo o que resta, é aquele dicionário, que nunca jamais em tempo algum conseguirá dizer tudo aquilo que alguma vez significaste, quando julgavas tu estar a ser alguém.
Para alguém. Para ninguém.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Casa de Partida

Eis-me de regresso a mim mesmo. Estive para além de mim, a gravitar sobre o eu e o tu, o nós, a acreditar no possível, a imaginar o resto, e como todo ele morre com a facilidade dum gesto jamais repetido. Guardo comigo as palavras certas, aquelas que esperam a hora errada para serem ditas, aquelas que aguardam o sentimento inoportuno, a ferida desabrida e o contorno rarefeito duma boca que nunca será a tua. Há palavras que não saem pela boca nem entram pelos ouvidos. São dias que acontecem complicados, inertes, silenciosos. Mas há-de haver, sem dúvida, um lugar onde tudo recomeça. Onde princípio e fim se encontram e se abraçam como eternos amigos, a quem nada separa ou amaldiçoa o sentimento, porque tempo e distância não o vergam. Um lugar onde o tabuleiro da vida encontra a sua paragem, a sua garagem, o seu abrigo, até os dados serem novamente lançados rumo à seguinte doce agonia. Trago comigo aquilo que julgava perdido, todo o amor do mundo e toda a sua impotência. Perdão, omnipotência. Aliás, omnipresença. Aliás... Julgo que não. Não o quê? Não trago. Alguma vez trouxe? Não. Não sei. Talvez. Eis-me de regresso aos diálogos ilógicos da diabrura que teimo em ter comigo mesmo. Acredito que possa doer. Muito. Palavras, lugares, sítios, olhares. Um abraço. Mas não creio que nada termine sem uma gota de prazer. Sem um travo a mel, um cheiro a Primavera extinta, uma labareda carmim. É algo que jamais irei esquecer. A esperança dum fim assim.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

♫ Da Memória ♫

Guardei as palavras que nunca te ouvi dizer
Aprendi a amar para saber o que é viver
Não digas nada, presta bem atenção
Quero que ouças o bater dum coração
Lume aceso, grito de paixão

Há uma lágrima que eu nunca vou secar
Um segredo escondido no fundo do mar
Beijos a medo dados na escuridão
Ecos duma guitarra num dia de Verão
Ver o sol se pôr na tua mão

Da boca derramas
O nome que amas
Vive este momento
Porque nada vai ter fim
Estar aqui contigo
Neste nosso abrigo
Ter-te aqui bem rente a mim

Quero adormecer e acordar noutro lugar
Ter o teu sorriso para me aconchegar
Tenho o teu rosto tatuado bem dentro de mim
Quero que saibas que isso vai ser sempre assim
Um amor que nunca vai ter fim

Da boca derramas
O nome que amas
Vive este momento
Porque nada vai ter fim
Estar aqui contigo
Neste nosso abrigo
Ter-te aqui bem rente a mim

domingo, 8 de julho de 2007

Mensagem

"Soldados! Aquellas praias são as do malfadado Portugal. Ali vossos pais, maes, filhos, esposas, parentes e amigos suspirão pela vossa vinda, e confião nos vossos sentimentos, valor e generosidade. Vós vindes trazer a paz a uma nação inteira e a guerra somente a um governo hypócrita, dispotico e usurpador. A empreza é toda de glória, a causa justa e nobre, a victoria certa. Os vossos companheiros d'armas virão engrossar vossas fileiras e ambicionarão a houra de combater ao vosso lado. E se alguns ainda houver que, desacordados, pertendão continuar a defender o despotismo, lembrai-vos que tendes diante de vós aquelles mesmos illudidos portuguezes, que na villa da Praia fugirão da presença do vosso sangue frio e da vossa coragem. Vencedores de S. Miguel e de S. Jorge, de quem nem os combates da villa das Vellas, da Ursellina e da Calheta, nem a posição inexpugnavel da ladeira da Velha puderão conter o enthusiasmo e a valentia! Ali tendes a patria que vos chama. Ali achareis a recompensa de vossos serviços. O termo dos vossos soffrimentos. O complemento de vossa gloria. Soldados! Seja o vosso grito de guerra: viva a senhora D. Maria Segunda e a Carta Constitucional, seja o vosso timbre: protecção aos inermes, generosidade aos vencidos."


D. Pedro, Duque de Bragança, 8 de Julho de 1832

segunda-feira, 2 de julho de 2007

(A)mor fina(L)

Tenho de volta de mim mil sóis em fúria incandescente. Estas vão ser portas fechadas, num vácuo imenso de passos largos rumo ao nada. Porque eu sei que o amanhã não terá tamanho que me cubra o espírito e apazigue a alma despida de mim mesmo. Chegará o inevitável dia inevitável em que saltará de dentro de nós o ensejo do encantamento e da ilusão desiludida, para que possa fugir daquilo a que nunca hei-de escapar. Não é preciso tomar decisões, quando podes confortavelmente deixar-te convencer por elas, para que elas decidam por ti e por si. Mas nunca será fácil rasgar a pele que nos clamou com todo o fervor, que nos raiou os olhos de tudo para dela fazermos nada. Um doce Verão do qual não abdico, se do outro lado espera um eterno Inverno, uma riqueza frágil como o direito de querer mais e melhor. Eu sei que as veias não me suportam mas também sei que não te suportam a ti. Uma droga a circular pelos vasos da alma, porque a descobriu onde nunca ninguém procurou. Um despertar tranquilo do sono feito tormenta que é estar vivo. Estará na mesma o espaço que percorremos quando for hora de voltar atrás na fita das recordações. Estará lá sempre o calor, o arrepio e o amargo do chocolate. E não vais fraquejar, pois nunca ninguém saberá o que traz realmente a curiosidade, porque quando a matamos, é aí que ela nos começa a matar a nós. Será sempre assim, desde aquele dia até àquele dia. Desde o dia em que nada custava até ao dia em que já nada custe.

terça-feira, 26 de junho de 2007

Esperar desespera

Foste abrir a persiana e está sol. Esperas. Pensas que hoje a praia vem até ti. Esperas. Assim ela queira. Esperas. Comes tostas de alho e salsa com manteiga. Esperas. São deliciosas, tens de te lembrar de não comer mais isso, porque o teu estômago lhes faz mal. Esperas. Crês que álcool por esta altura também ditará o rumo do dia. Esperas. Haja esperança nisso também. Esperas. Diga-se que a manteiga podia estar mais vergada ao peso da lâmina. Esperas. Os teus dentes já não são o que eram. Esperas. Se alguma vez foram o que eram. Esperas. Vislumbras o teclado cheio de gordura. Esperas. Sorris. Esperas. Há sempre uma alegria estranha no descobrir das asneiras que fazes. Esperas. Excepto quando são daquelas mesmo irremediáveis. Esperas. Conheces gente que nem assim. Esperas. Interrompeu-se o teu pensar. Interrompeu-se o teu esperar. Já não tens de pensar. Já não tens de esperar. Estás aqui.

terça-feira, 19 de junho de 2007

Quimera

Não garanto a mim mesmo que consiga sobreviver ao que vou escrever. Há-de ser tamanho o turbilhão que alguém irá questionar a sua razão. Não me importa, não me rala, não obedeço a mim mesmo, quanto mais aos outros. Fechei-me num quarto vazio sem janelas nem cantos onde me esconder ou viver o outro, experimentando sentir coisas vãs, negras e horríveis, e este há-de ser o resultado. O encarnar doutra pele, onde o pulsar das veias a rasgam com a facilidade dum sorriso hipócrita. Porque tu vieste fechar a porta para que eu não mais saísse desta divisão indivisível de mim mesmo. Há outro ser criado que fala e ninguém me pode responsabilizar por ele, pois não sou ele e ele não sou eu. Vou repetir para que não se ache que é engano e não haja dúvida: não sou ele e ele não sou eu. As coisas são quimeras contruídas sobre as cinzas do que nunca valeu a pena evitar. Quis a razão sem querer que houvesse coragem para soltar da prisão as palavras silenciadas em vão pelo fulgor dos dias inadiáveis. Dizem que faz bem ser capaz de estar bem. Consegui-lo é uma batalha diária para alguns. Muitos perecem nas trincheiras da histeria do bater de asas duma borboleta. É incrível o poder que a relatividade pode ter sobre as pessoas, quando o pulsar dum sentimento se lhes escapa. Pensando bem, nunca pensei tão mal. Salvei os rascunhos de todos as coisas redigidas, menos aquelas que deixei as chamas levar pela areia fora. Essas jamais serão repetidas, porque o tempo foi capaz do pior e se lhes levou a melhor. Do que falo senão do fragor da espuma do mar vindo ao encontro dos meus pés? Não haverá jamais palavras que possam descrever a torridez de tamanha frescura. É como falarmos baixo para paredes altas, ás quais não iremos sobreviver porque não nos entendemos além da masmorra torácica. Eis um alojamento perfeito para a mudança de ocasos casuais da lua. Já nem sei o que digo. Morri para além do equacionar das equações em que deixei cair caído o meu próprio pensamento, e deixei apenas a sonoridade do som me levar a navegar pelo éter, como se eu mesmo me confundisse com a maresia hertziana. E fosse eu tudo aquilo que querias ouvir. Alguém que sobreviva às suas próprias palavras, será eterno.
Estou vivo. Elas também. Prossiga a quimera.

domingo, 17 de junho de 2007

Pequenas ilhas

Abro os olhos e é hoje. Não vou mais negar a opacidade do meu olhar quando a cegueira me turva olhar e mente. Por aqui não há-de ser o caminho, mas vários alguéns o vão seguir na mesma, e vão correr, e sorrir, e encontrar significados nas minhas coisas insignificantes, porque é assim que é a coisa mais engraçada na vida das pessoas. Há-de haver alguém que queira tudo mudar para que tudo fique na mesma, como no início, quando queria que tudo não tivesse fim e fosse apenas o princípio. Não há penitência que absolva o demérito das folhas que nunca quis escrever, porque lhes falta leitura. Ainda é preciso acreditar na mentira que a realidade nos oferece como beijos, porque assim estamos certos de acordarmos sempre primeiro que toda a gente. Porque quando chover, saberás muito depois de mim. Porque quando fizer sol, estarás a gozá-lo e eu não. Ninguém precisa entender a efemeridade eterna das palavras, porque elas só fazem sentido enquanto fazem sentido. Têm um prazo de validade que nunca passa até ter passado. E os lugares em que crescemos em gravitação para além de nós são pequenas ilhas, em que fora delas não somos o que éramos dentro delas. Feliz de quem captura essas pedaços de terra para si em permanência. Porque tudo é em vão. Não há veia que pulse eternamente á espera do plasma que escolheu o caminho forçado pela lâmina. Que estupidez. Ainda hoje ninguém conseguiu explicar. E inventam-se respostas inventadas para perguntas que não deviam ser perguntadas. Sem noção de que se deve ter noção das coisas. No fim, alguém há-de perceber. E eu hei-de ir pelo caminho de onde vieste. Para saber, pulsar, crescer, capturar. Porque ainda sei o que é saber lembrar. Para que nunca jamais em tempo algum sejam esquecidas as pequenas ilhas em que gravitamos, na Primavera primaveril da existência de todas as coisas.
E depois ainda há sempre alguém que diz: Não digas mais asneiras por hoje.

domingo, 10 de junho de 2007

Obelisco

Já percebi a sede que me assalta naqueles dias. Tem tudo a ver com a fome de me saciar na sede dos outros. Deve ser por isso que odeio estar sozinho. E depois quando não estou, tudo é perecível. Sangro a veia até á exaustão e creio que está a secar. Como escrita perecível. Tudo o que disse é perecível. Como os mil rostos da utopia, que são um só, e são o teu. Uma paisagem que me assalta em verso versado, em prosa pausada, em sorrisos desconfiados de que o melhor ainda está para vir. Um lugar dentro de nós, um corpo estranho, um hábito desabituado a nós e nós a ele. És coisa insubmissa ao enredo da eternidade, um tratado assimétrico da cor das nuvens e cheirando a maresia e uma mistura de vários cafés. E não posso deixar de achar que não acho isso pouco importante. A inamobilidade das pedras comove-me e causa inveja. É uma doce e calada inquietude estratificada em camadas do passado. É uma linhagem amadurecida pelo compasso descompassado do tempo, um traço riscado á risca pelo conflito do relógio com as manhãs do dia seguinte a te ver. Não sei nada das águas em que mergulho, e dizem-me que até os mares mais claros podem afogar, se forem suficientemente profundos. Nada nos avisa quando ignoramos todos os avisos. Nada me podia alguma vez ter preparado para o teu sorriso. E para como ainda hoje me desarmas com ele. Beijos são mentiras em que obrigados escolhemos acreditar. Não matam sede alguma, antes a elevam á potência da loucura. Mas olho... e percebo. Nunca valerá a pena desistir. Porque as sombras que nos cobrem hoje só existem porque são feitas pela luz que havemos de encontrar amanhã.

domingo, 3 de junho de 2007

A agenda e a consumição

Só queria não ser só, não estar só, não querer só. Pois é o desejo por realizar, a fome por saciar, a sede por matar que conduzem o homem á luz ou á queda - qual delas a pior. Dei teu nome a um poema e fiz do teu rosto um emblema, que trago ao peito... do lado de dentro. É um gesto, um afago, uma sina que meus sonhos ilumina. É o ar que se enamora por ti só porque sente a vaidade de o respirares. Porque dás vontade de cantar. É uma consumição. De certeza que já reparaste que as estações do ano não passam, mas antes desfilam diante de ti, tentando te impressionar. É uma luta desigual. Já não consigo passar incólume pelas coisas, e ver o tempo definhar sangra-me. Compulsivamente. E depois, eis que respiras e eu celebro-o. Vamos conversar e eu não vou saber explicar melhor que um beijo. Jamais te esquecerei, pois não me quero lembrar de ti. E se há coisa que não esqueço, é que nunca mais me quero lembrar de ti. É uma consumição. Penso bem. Penso melhor. Hei-de ser velho e não saber a vida de cor.

sábado, 2 de junho de 2007

Rehearsal over shifting principles

I am sick.
I am a very sick person.
Sickness elludes me, it allures me into a cage and then bites my head off.


I'm tired. Sleep makes me tired. I wake up tired. I was born tired.
Legitimately, not alledgely.
My bone structure is weak, my stomach burns, my head hurts all the time.
Maybe it's all in my head.
It's a sickness either way. I surrender. I require solitude.
I require a blank piece of paper and a pen.

I am sick. In such deserted island, it's all the company I have.
I'm honest. I'll tell you the truth whenever I lie.
With a smile and always looking straight into your eyes.
Sick people don't lie though. Liars don't get sick.
They lie about their sickness. They lie about everything.
They are a lie. They think they know everything and others know nothing.
Who are they?
They are the cage. They are trying to bite my head off.
Liars are sick people who don't get sick.
They don't care. They have no spine.
They have their shifting principles. They have their own tides and waves.
They evade truth by the great canvas of perspective.

I am sick. I am writing it down to remind myself of being sick.
Yes I am sure.
I am sick and my sickness has that unnameable name.
That unthinkable thought.
That unreasonable reason.

I'm getting sick of this.


26 de Novembro de 2004

sexta-feira, 1 de junho de 2007

Decisions make you ugly

Smile.
Love is subtle and great
A blessing and a threat
If it can´t be wounded.
It comes without notice.
Dressed in unlikeliness clothing.
So believe in love.
Take time making your bed warm
By far the best place you will ever find shelter in.
Friend or foe you will never let go
As you can't survive alone in this world.
So remember:

Decisions make you ugly.

You will never keep everyone happy.
Always be true whenever you lie.
You'll feel better the next sober morning.
Have faith.
Don't be afraid of spending time on your own.
Learn to become fond of those moments
As you get to know yourself better
And be able to show it to others.
The rain and the pain, the clouds and the doubts
Will always be there.
Don't fight them.
Be proud of being weak.
Being proud makes you strong.
Discard all "masks of self-hate".
Loving yourself is unavoidable.
Wait.
Stop whenever you can and admire detail.
See what you can't see because you always rush.
Every street, every garden will always have something new.
Go places.
Be sure to keep memories of such things
Because in doing so you will travel
Every single day of your life.
Once you've failed, you must try again.
You'll feel the need to fail better this time.


12 de Outubro de 2004

quinta-feira, 31 de maio de 2007

Dura Fredo Segafredo

Great empires are a struggle to build
People follow, people follow

The ceiling tends to be a black dotted blanket
People follow, people follow

A cheering crowd as remedy to bruised egos
People follow, people follow

A thousand years can be a little bit tiring, so take a seat
People follow, people follow

We are young and we know everything about everything
People follow, people follow

We have our chins of stone and our hearts of clay
But the point is to obey (may they say)
People follow, people follow

Discomfort turns your cheek
Is it the truth making you weak?

No!
People still follow
People still follow
People still... Swallow?

It is a feeling called protocol
It is a thirst for powerless power
The biggest of truths is written on the walls
So tell me

What will you do
When all your lies give up on you?


Março de 2005

quarta-feira, 30 de maio de 2007

♫ Everything I Need to Know ♫


The day you left, the silence was deafening

You screamed so damn loud I could hardly hear you

Your silent whispers chanting my name so smoothly

Still break me late at night and hold me tight

When I can’t sleep, I can only keep in deep agony

The faded breath of your own misplaced thoughts

I never learned the disorder of your mind

And I never learned the disorder of your name

'Cause everything I need to know

Everything I need to know

I knew it the minute that I saw you...

Everything I need to know

Everything I need to know

I know it now…


Outono de 1999

Dez folhas de nada

Olha, não faz qualquer sentido. Sabes muito bem do que falo. Contaram-me que os semáforos na Suécia ao passarem de vermelho para verde também passam pelo amarelo. É como a vida a andar para trás num repente. Verde, AMARELO, vermelho, AMARELO, verde... Ao menos na Suécia avisam que a vida vai parar, mas também mostram que vai começar a andar de novo. O dia vai nascer de novo. O semáforo vai abrir. Não tarda. Custa muito contar o tempo ao segundo, mas custa muito mais não notar que os ponteiros se movem, e depois dar por ela e já não estás aqui. Nem sequer dá para perceber porque deixas a areia escorrer por entre os dedos, porque é que já nada mexe esse universo. Os sítios a que vamos porque são marcos, como faróis que guiam os bravos lobos do mar, só existem porque nos lembramos deles. Enquanto nos lembramos deles. Porque no dia em que tudo se olvida, não há que ter medo de morrer, mas sim de sentir a própria vida. E depois, a pressão do pressionar, a dor do doer, a inconsciência da consciência, a cegueira de nunca ter visto tão bem como nesse instante, não passam de linhas desalinhadas, dum futuro que apareceu tarde demais. É um silêncio ensurdecedor que ás vezes escolhemos obrigados. Acho que dói porque me lembrei de acreditar. É a noite sempre á noite, como se bastasse estar longe, estar calado, permanecer inerte. Sem palavras que sejam mel em algumas bocas, sem sons que nos tentem nem luzes que nos embriaguem corpo e alma. Mas no fundo, hei-de ir sempre dar a mim, no final do caminho, como algo sagrado e muito íntimo. Desde o dia que nascemos até ao dia que morremos, o peso maior é termos de nos suportar. Não nos podemos separar de nós, nem das coisas que fizemos. O semáforo vai voltar a abrir, como um círculo sem fim, e só espero que saibas que não faz sentido nenhum estarmos sós neste mundo.

terça-feira, 29 de maio de 2007

A palavra Amor


Acordo pela manhã e estás aqui. Estás dentro de mim, na figura duma alma gémea que encontrei nos corredores agrestes do meu caminho. Procurei-te toda a vida sem alguma vez o ter notado; enquanto me entretinha com coisas menores, crescias em mim.

Gastei demasiado tempo da minha ainda curta vida a tentar negar-te, achava-te vulgar, impregnavas tudo e todos com a tua essência de mel, e eu tinha medo de ti. Tenho sempre medo daquilo que não controlo, e tu jamais foste algo que eu conseguisse dominar.

Saio lá fora e está frio. Sinto-me estranhamente quente, sinal de que ainda não me abandonaste. Quero falar de ti a toda a gente que conheço, mas isso significa ter de libertar um lado da minha alma para o qual não estou ainda preparado. Apanhaste-me de surpresa, à traição, e não consigo deixar de pensar que isso não pode ser bom sinal. Nunca pode ser bom sinal. Pode?

Negoceio contigo a cada esquina de rua, quero que te vás embora, mas dou por mim perdido no ardil que ousaste montar em meu redor. Cheguei ao sítio onde não queria chegar. Onde pensava não querer chegar. Sento-me para não cair.


Dedico-te algumas linhas num caderno que não as tem, e abuso de mim próprio ao ousar desenhar um coração em volta delas. Distraíste-me de tal forma que já nem me conheço. Olho para mim e minto a mim mesmo. Digo que vais embora não tarda. Faço promessas que tenciono não cumprir, e rezo algo que nunca soube de cor, deixando a ingenuidade me fazer crer que isso basta.

Eu sou um fraco. Admito. Julgava ser possível viver sem ti, e aquilo que eu mais buscava, eram outras respostas que não as tuas. Mas seduziste-me, e eu queria olhar para ti, mas a luz não deixava. Queria dizer-te que isso não se faz.

Estou poluído. Tenho tantas razões para não te querer, e não consigo articular uma só, no intuito de desafiar o teu domínio. Queria poder voltar a tapar-te com as coisas menores. Queria não ter de ficar preso na espera por cada sopro teu, para poder respirar. Queria poder mentir-te e dizer que não preciso de ti. Sangrar-te das minhas veias e ousar prescindir de ti. Mas a verdade é que preciso que me alimentes com o silêncio da tua voz, que me tires do marasmo que é ser eu mesmo, e que me faças ser capaz de ser maior.
Deito-me muito tarde. Todos os dias é assim. Fico a pensar como é estranho que me tenha habituado a ti, e agora não deseje outra coisa. Acho que sempre foi assim, simplesmente não o sabia. Se calhar não estamos vivos até te conhecermos. Se calhar nascemos apenas quando tu te revelas a nós. Se calhar tu não existes para além dos textos em que imagino que estou a falar contigo.

Vou adormecer, como sempre, embalado pela canção que fazes questão em entoar na minha mente, cada vez que fecho os olhos para dormir. Uma canção que fala de ti, fala de mim, fala de nós. Esvaio as minhas últimas palavras do dia, deixando-as rumar ao eco das paredes do quarto: “Ainda bem que te pertenço”. Falo para ninguém.
Não me sinto ainda capaz de dizer o teu nome. Falo tanto de ti, e apercebo-me de que é de mim que falo. Estás aqui, e tudo o que sei é que há uma luz ao fundo do túnel, e eu espero que ela jamais se apague.



30 de Setembro de 2005

quarta-feira, 23 de maio de 2007